Conteúdo verificado
quinta-feira, 7 de maio de 2026 às 10:02 GMT+0

Desenrola 2.0 resolve ou adia a crise? Brasil dos boletos - Como o parcelamento está levando milhões ao endividamento crônico

O endividamento no Brasil atingiu patamares históricos, com cerca de 80% das famílias endividadas e metade da população adulta em situação de inadimplência. Diante desse cenário, o governo federal lançou o Desenrola 2.0, uma iniciativa que busca aliviar o peso das dívidas para cidadãos com renda de até cinco salários mínimos. Embora o programa represente um suporte imediato e uma tentativa de reinserir o brasileiro no mercado de consumo, especialistas alertam que a medida foca nos sintomas, mas não cura a "doença" estrutural: uma cultura de consumo baseada no crédito predatório e na dependência de parcelamentos para itens básicos.

O ciclo do endividamento crônico

O pesquisador define o endividamento brasileiro como crônico, pois não se limita à compra de bens duráveis. O parcelamento tornou-se uma ferramenta de sobrevivência, sendo utilizado para custear alimentação, vestuário e contas básicas. Esse comportamento gera uma alienação do futuro: a renda dos próximos meses já nasce comprometida, forçando o consumidor a novos parcelamentos em um efeito cascata que inviabiliza o planejamento financeiro a longo prazo.

O paradoxo da inclusão financeira

Nos últimos 25 anos, o acesso ao crédito foi promovido como um vetor de inclusão social. No entanto, Lopes dos Santos qualifica essa inclusão como nociva em sua forma atual. Embora garanta acesso imediato a tecnologias e conforto (como geladeiras e celulares), ela ocorre sob taxas de juros altíssimas que drenam o orçamento das periferias. O sistema varejista e financeiro criou uma lógica onde, muitas vezes, o consumidor paga o valor do produto em juros, mantendo-se permanentemente vinculado a uma dívida.

O impacto das apostas (Bets) na economia doméstica

Um fator recente que agravou o cenário é a disseminação das plataformas de apostas virtuais. O estudo aponta que as "bets" funcionam como um dreno de renda, levando muitos brasileiros a recorrerem a modalidades de crédito ainda mais caras, como o cartão de crédito e o cheque especial, para cobrir perdas no jogo. Como medida de contenção, o Desenrola 2.0 prevê o bloqueio de apostas por um ano para quem aderir à renegociação, uma tentativa de conscientização sobre o risco social desses jogos.

O Papel e os limites do Desenrola 2.0

O programa é visto como uma injeção de renda indireta, permitindo que o nome do cidadão seja "limpado" para que ele volte a consumir. Contudo, há críticas quanto à sua eficácia duradoura:

  • Reincidência: Entre a primeira e a segunda versão do programa, milhões de pessoas retornaram ao superendividamento.
  • Cultura de renegociação: Existe o risco de se criar uma percepção de que dívidas podem ser resolvidas sempre no curto prazo, sem enfrentar as causas reais da insolvência.
  • Uso do FGTS: A permissão para usar até 20% do FGTS na quitação de dívidas é controversa, pois retira recursos que seriam destinados à habitação ou proteção ao desemprego para transferi-los ao sistema financeiro.

Além da educação financeira tradicional

Para o pesquisador, o problema não será resolvido apenas com cursos básicos de orçamento doméstico. É necessário um letramento financeiro crítico, que ensine a população a entender a estrutura das taxas de juros e o funcionamento do sistema bancário. Além disso, aponta que o aumento real da renda do trabalhador e a regulação mais rígida da oferta de crédito são os únicos caminhos para evitar que o Brasil continue sendo o "país dos boletos".

Solução ou ciclo vicioso?

O Desenrola 2.0 funciona como um alívio temporário essencial para milhões de brasileiros, mas sua existência evidencia a falha de um modelo econômico onde o consumo depende excessivamente de dívidas. Enquanto o país não enfrentar as taxas de juros elevadas e a baixa renda estrutural, programas de renegociação atuarão apenas como paliativos em um ciclo de consumo que prioriza a saúde dos bancos e do varejo em detrimento da estabilidade financeira das famílias.

Estão lendo agora

“Eu amo meu filho, mas me arrependo de ser mãe”: O tabu silencioso da maternidadeO arrependimento da maternidade é um tema pouco discutido e frequentemente cercado por tabu. Embora a sociedade costume ...
Não é 'falta de paciência': Entenda a Misofonia, a inflexibilidade mental e a síndrome da sensibilidade seletiva a sonsA audição é uma experiência sensorial complexa, intrinsecamente ligada às nossas emoções e cognição. A Misofonia, um dis...
Fenômeno dos 'Bebês Vikings': Por que o esperma dinamarquês domina o mercado global de doação - Riscos genéticos e falta de controle e éticaO mercado de doação de esperma, avaliado em bilhões, é uma indústria global em expansão que permite a milhares de mulher...
Redes sociais e suicídio adolescente: O alerta global sobre saúde mental na era digitalUm relatório recente divulgado pela KidsRights, em parceria com a Universidade Erasmus de Roterdã, alerta para uma crise...
Vale a pena? Crítica de "Devoradores de Estrelas", o filme com Ryan Gosling que revoluciona a ficção científicaO cinema de ficção científica ganha um novo fôlego com a estreia de Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), que che...
Barriga inchada não é normal: Entenda os sinais do seu corpo e quando procurar um médicoO inchaço abdominal raramente tem uma única causa; é frequentemente resultado de uma combinação de fatores. Podemos agru...
História real de amor e gratidão: Macaco inspeciona cicatrizes de seu resgatadorBBC imagens Após três semanas separados, o macaco Tosya reencontrou o homem que mudou sua vida: o ucraniano Leonid Stoya...
Ecológica Verde: Como a maior página de pirataria de jogos do Brasil foi derrubada e o debate sobre preços abusivosA maior página de pirataria de jogos e softwares do Brasil, conhecida como Ecológica Verde, foi derrubada em abril de 20...
Seus amigos sugam sua energia? Dicas de como identificar e lidar com "vampiros sociais"Imagine terminar um encontro com um amigo e se sentir mais cansado do que quando chegou, como se sua energia vital tives...
Papa Francisco: 12 anos de esperança em um mundo em crise – Diálogo, reformas e o legado que transformou a igrejaA imagem do Papa Francisco caminhando sozinho durante a pandemia de Covid-19 tornou-se um símbolo do seu pontificado. Em...
Letra de médico: Por que é tão ruim? A neurociência explica a caligrafia ilegível e como melhorar sua escritaA expressão "letra de médico" virou sinônimo de caligrafia ilegível, motivando até leis no Brasil para exigir receitas d...
Tokinho, o cão que desafiou a lei: O que a ciência diz sobre os dreitos dos animais?O caso do vira-lata paranaense Tokinho, resgatado de maus-tratos em 2023 e recentemente reconhecido pela Justiça como me...