Conteúdo verificado
domingo, 28 de setembro de 2025 às 11:53 GMT+0

Especialista de Harvard alerta: Como os vencedores da 2ª guerra se tornaram os maiores obstáculos para a paz

A Organização das Nações Unidas (ONU), concebida em 1945 como o grande farol de esperança após a Segunda Guerra Mundial, atravessa um momento decisivo. A análise do professor Vitelio Brustolin (UFF e pesquisador de Harvard), apresentada na CNN, aponta que o próprio alicerce da organização, o multilateralismo de sua Carta fundadora, está sendo severamente questionado.

Este declínio é mais palpável na área mais crucial para a ONU: A manutenção da paz e da segurança internacionais. Sem uma governança global eficaz, a capacidade da organização de cumprir sua missão primária está em risco.

A arquitetura de poder da ONU: Idealismo vs. Realismo

A missão primordial da ONU, expressa em sua Carta, é "preservar as gerações futuras do flagelo da guerra". O professor Brustolin hierarquiza as prioridades:

1. Manutenção da Paz: A base de tudo, pois, sem paz, é impossível garantir qualquer outro direito.
2. Defesa dos Direitos Humanos.
3. Desenvolvimento Econômico e Social.

A estrutura da organização reflete uma dualidade política inerente:

  • Idealismo da Assembleia Geral: Onde todos os 193 Estados-membros (pequenos e grandes) têm um voto e voz.
  • Realismo do Conselho de Segurança: O órgão mais poderoso, dominado pelos cinco membros permanentes — EUA, Rússia, China, Reino Unido e França (os vencedores da Segunda Guerra) — que detêm o decisivo poder de veto.

A contradição central: Os guardiões que quebram a paz

O cerne da crise, de acordo com Brustolin, reside em uma contradição profunda e paralisante:

  • A acusação: Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, que deveriam ser os principais garantes da paz, são apontados como os maiores violadores do objetivo fundamental da ONU.
  • O histórico de violações: Eles "têm descumprido a Carta da ONU sistematicamente desde a década de 1950", minando a credibilidade da própria instituição.

Exemplos notórios:

  • O uso frequente do veto pela Rússia para bloquear resoluções contrárias aos seus interesses.
  • A Guerra do Iraque (2003), iniciada por EUA e Reino Unido sem a autorização explícita do Conselho de Segurança.
  • Essas ações desautorizam a ONU e abalam sua legitimidade perante a comunidade internacional.

Implicações desta crise: Um mundo mais instável e injusto

A análise de Brustolin alerta para o impacto sistêmico do declínio do multilateralismo no cenário global:

A erosão da legitimidade e segurança global

  • Vácuo de liderança: Quando os responsáveis pela paz são os que a ameaçam, a ONU perde sua autoridade. Isso cria um ambiente propício para a proliferação de conflitos com impunidade.
  • Colapso da governança: O declínio do multilateralismo (corroborado pelo Índice de Paz Global de 2024 do Institute for Economics and Peace) significa que não há um fórum eficaz para mediar disputas entre grandes potências, tornando o mundo mais instável e imprevisível.

Efeito cascata em direitos e desenvolvimento

  • Prejuízo aos direitos humanos e ao desenvolvimento: Seguindo a hierarquia de Brustolin, a guerra inviabiliza a proteção de direitos básicos e destrói as bases para o desenvolvimento econômico e social. A crise de segurança afeta todas as outras áreas de atuação da ONU.

A injustiça representativa

  • Perda de voz das nações menores: A estrutura de poder do Conselho de Segurança marginaliza a grande maioria das nações. Países com milhões ou até bilhões de habitantes têm sua influência limitada, enquanto apenas cinco nações podem bloquear decisões cruciais para a paz mundial com seu veto.

Um momento de incerteza e reflexão

A afirmação do professor Vitelio Brustolin de que "o multilateralismo da Carta da Onu está em xeque" sintetiza um consenso crescente entre analistas internacionais. A organização, que completou 80 anos, enfrenta sua crise mais profunda justamente porque sua estrutura de poder, concebida no contexto pós-guerra, tornou-se disfuncional para os desafios do século XXI. A contradição entre seu nobre idealismo e a realidade do poder dos estados nacionais, principalmente daqueles com assento permanente no Conselho de Segurança, paralisou sua capacidade de agir. O futuro da governança global depende da capacidade de reformar e adaptar esta instituição, ou de ver surgir novos modelos de cooperação internacional que possam efetivamente "preservar as gerações futuras do flagelo da guerra". O xeque está posto, e o próximo movimento é incerto.

Estão lendo agora

Crise dos homens jovens: Por que eles estão ficando para trás econômica e emocionalmente? O que dizem os dados?Estamos diante de uma geração de homens jovens que enfrentam desafios sem precedentes em termos econômicos e emocionais....
Relacionamento depois dos filhos: Os erros que afastam o casal e como evitá-losA transição da vida a dois para a rotina com filhos é, para muitos casais, o maior teste de resistência de um relacionam...
Do burnout ao "rust out": Entenda a nova forma de esgotamento profissionalO rust out é um fenômeno pouco discutido, mas cada vez mais presente no ambiente profissional. Ele representa o declínio...
Os 10 mandamentos do crime: O código de conduta que rege as favelas do Comando Vermelho e que não mudam após a megaoperação do estadoO Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções criminosas do Brasil, impõe um regime de regras estritas e punições sev...
Alien: Earth - A revolução dos xenomorfos? Como a série do Disney+ quebrou a regra de ouro da franquiaA série Alien: Earth, do Disney+, tem sido um divisor de águas na franquia, desafiando décadas de mitologia com uma revi...
Triangulação da carne: Há um caminho "secreto" do Brasil para burlar o tarifaço de Trump?Em meio à tensão do comércio global, uma investigação da CNN levanta uma questão intrigante: seria a indústria da carne ...
Max Verstappen pode deixar a Red Bull em 2025? Entenda a cláusula secreta, crise na equipe e possíveis destinos do campeãoA Red Bull, uma das equipes mais dominantes da Fórmula 1 nos últimos anos, enfrenta um cenário inesperado em 2025: o tem...
"F1: O Filme" é baseado em história real? Descubra as inspirações reais por trás do drama das pistas"F1: O Filme", já em cartaz nos cinemas brasileiros, narra a história fictícia de Sonny Hayes, um piloto veterano que re...
O Paradoxo de Fermi explicado: Por que ainda não encontramos alienígenas? A verdade incômoda sobre a vida extraterrestre inteligenteA pergunta "estamos sozinhos no universo?" é uma das mais fascinantes e antigas da humanidade. Ao olharmos para o céu, s...
O que é o "Lítio" e o que representa para a saúde mental? Entenda como o elemento estabiliza o humor e evita o suicídioDo Big Bang à psiquiatria moderna, o lítio percorreu uma trajetória singular. Antes conhecido apenas como elemento quími...
Arquivos secretos da PF explicam o indiciamento da tríade Jair, Eduardo Bolsonaro e Silas Malafaia - Pedido de asilo e conspiração contra a soberania nacionalA Polícia Federal indiciou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), atualment...
Quem é El Temach? De ator fracassado a fenômeno da internet - A transformação e o império milionário da machosferaA reportagem da BBC investiga a trajetória de Luis Castilleja, conhecido como El Temach, influenciador mexicano que se t...