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sábado, 12 de abril de 2025 às 10:58 GMT+0

Conviver com o 'trauma' e a busca pela cura: Como o corpo armazena a dor e métodos inovadores para superá-la (baseado em Bessel van der Kolk)

O trauma é uma experiência que vai além da mente, marcando o corpo e alterando a forma como vivemos e nos relacionamos. Bessel van der Kolk, psiquiatra holandês radicado nos EUA, dedica mais de 50 anos a estudar como o trauma afeta indivíduos — desde veteranos de guerra até vítimas de abuso infantil. Sua abordagem desafia métodos tradicionais, como medicamentos e psicoterapia verbal, propondo intervenções inovadoras que envolvem o corpo e a reconexão social.

O que é trauma e como ele nos afeta?

  • Definição: O trauma ocorre quando uma experiência avassaladora — como violência, abuso ou desastres — supera a capacidade de coping (adaptação), deixando a pessoa "presas" no evento.

Impacto psicofisiológico:

  • Cérebro: Altera processos neurológicos, hiperativando o sistema de estresse (como o eixo HPA, responsável pela liberação de cortisol).
  • Corpo: Manifesta-se em tensão muscular, insônia e até doenças crônicas. Van der Kolk destaca:

"Com o trauma, a vida vira uma série contínua de desastres, porque até as menores coisas te deixam louco".

  • Comportamento: Pode levar a hipervigilância, isolamento ou vícios (álcool, drogas) como tentativa de autorregulação.

Segundo a OMS, 70% da população mundial viverá ao menos uma situação traumática. Embora nem todos desenvolvam transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), o trauma infantil é especialmente devastador, pois a criança não tem escape.

Abordagens terapêuticas inovadoras

Van der Kolk critica a dependência excessiva de antidepressivos e defende métodos que reintegrem corpo e mente:

1. Terapias corporais:

  • Ioga e massagem: Ajudam a restabelecer a conexão com o corpo, reduzindo a hipervigilância.
  • EMDR (Dessensibilização por Movimentos Oculares): Reprocessa memórias traumáticas através de estímulos bilaterais.

2. Psicodélicos assistidos:

  • MDMA e cetamina: Estudos publicados na Nature Medicine (2021) e PLOS One (2024) mostram eficácia no TEPT, mas só funcionam em contextos controlados, com terapia de apoio. Van der Kolk alerta para os riscos do uso recreativo.

  • Terapias coletivas: Grupos de apoio, inspirados em modelos como os Alcoólicos Anônimos, onde o compartilhamento de experiências promove cura.

  • Destaque cultural: Van der Kolk sugere pesquisar práticas brasileiras como capoeira e samba como ferramentas terapêuticas, já que culturas com histórias traumáticas frequentemente desenvolvem mecanismos de resiliência corporal.

Trauma infantil: Uma epidemia silenciosa

1. Consequências: Abusos na infância afetam a autoimagem, a regulação emocional e a capacidade de formar vínculos. Crianças podem crescer sentindo-se "culpadas" ou "merecedoras" da violência.

2. Longo prazo: Adultos que sofreram trauma infantil têm maior risco de depressão, ansiedade e até condições físicas como doenças cardíacas.

Van der Kolk enfatiza que o trauma infantil é um problema de saúde pública global, exigindo políticas de prevenção e intervenção precoce.

Trauma coletivo vs. individual

  • Coletivo: Ocorre em comunidades expostas a violência sistêmica (como guerras ou pandemias). Exemplo: Profissionais de saúde durante a COVID-19 ou palestinos em zonas de conflito.
  • Individual: Depende da percepção e recursos de cada um. Nem todos que vivem a mesma situação desenvolvem trauma.

Recomendações para sobreviventes

  • Fale sobre o trauma: Romper o silêncio é crucial, especialmente em casos de abuso familiar.
  • Conecte-se com outros: Grupos de apoio oferecem validação e estratégias práticas.
  • Movimente-se: Atividades que envolvam o corpo (dança, esportes) ajudam a restabelecer a sensação de controle.

Um chamado para a cura integral

O trabalho de van der Kolk revela que o trauma exige uma abordagem multidimensional — que una mente, corpo e comunidade. Seu ceticismo em relação aos tratamentos convencionais não é uma rejeição, mas um convite para explorar métodos mais holísticos. Enquanto a ciência avança com psicodélicos e neuroimagem, ele lembra que a empatia e a segurança relacional são bases inegociáveis para a recuperação.

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