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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 às 11:32 GMT+0

Quem inventou a "Fanta"? Como a Coca-Cola sobreviveu ao Nazismo criando um novo refrigerante - As origens sombrias da Fanta

A história da Fanta é um dos capítulos mais fascinantes e, ao mesmo tempo, desconcertantes do mundo corporativo. O refrigerante que hoje é sinônimo de diversão e cores vibrantes nasceu de uma crise existencial profunda durante um dos períodos mais sombrios da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Embora o Brasil seja atualmente o maior mercado consumidor de Fanta no mundo, a origem da bebida remete a um cenário de escassez, embargos econômicos e à necessidade de sobrevivência de uma empresa em solo inimigo.

O dilema do xarope proibido

  • Na década de 1930, a Coca-Cola já era um fenômeno na Alemanha: Sob o comando do executivo Max Keith, a subsidiária alemã operava a todo vapor. No entanto, com o ataque a Pearl Harbor em 1941 e a entrada oficial dos Estados Unidos na guerra, a relação comercial foi brutalmente interrompida.
  • O bloqueio econômico impediu que o xarope secreto da Coca-Cola chegasse às fábricas alemãs: Sem a matéria-prima principal e com a Marinha Britânica bloqueando as rotas comerciais do Terceiro Reich, Max Keith viu-se diante de um impasse: ou a empresa fechava as portas, ou ele criava algo inteiramente novo com o que havia sobrado no país.

Uma receita feita de sobras

Diferente da versão cítrica e doce que conhecemos hoje, a Fanta original era um produto de "reciclagem" industrial. Keith desafiou seus químicos a criarem uma bebida utilizando apenas subprodutos de outras indústrias alimentícias, já que os ingredientes tradicionais estavam racionados.

A primeira fórmula da Fanta consistia basicamente em:

  • Soro de leite: O líquido que sobrava da produção de queijos.
  • Fibras de maçã: Resíduos provenientes da fabricação de sidra.
  • Açúcar de beterraba: A principal fonte de doçura disponível na região.

O resultado era um líquido de coloração escura e sabor indefinido, muito distante da laranja: Curiosamente, devido à falta de açúcar nas casas alemãs, a Fanta era frequentemente usada como adoçante em receitas culinárias, sopas e sobremesas da época.

O batismo da "fantasia"

  • O nome Fanta não foi fruto de uma agência de marketing moderna, mas de um concurso interno: Max Keith pediu aos seus funcionários que deixassem a "fantasia" (fantasie, em alemão) fluir para nomear o novo produto. Um vendedor, Joe Knipp, rapidamente sugeriu a abreviação: Fanta.
  • O nome era curto, fácil de pronunciar: Estrategicamente, desvinculado de qualquer ideologia política direta, embora sua existência fosse inteiramente dependente do contexto do regime nazista.

O renascimento otaliano e a laranja

Com o fim da guerra em 1945, a produção da Fanta foi descontinuada pela Coca-Cola, que retomou o controle de sua filial alemã. A marca ficou "na geladeira" até 1955.

A reinvenção ocorreu na Itália: A Coca-Cola percebeu a necessidade de competir no crescente mercado de refrigerantes de frutas e decidiu usar ingredientes locais, as famosas laranjas italianas, para criar uma nova bebida. Em vez de registrar um novo nome, a companhia resgatou a marca Fanta, que já estava sob seu domínio jurídico. Foi nessa transição que a Fanta ganhou a identidade visual e o sabor que conquistariam o mundo.

Legado e pragmatismo empresarial

  • A trajetória de Max Keith ainda gera debates éticos: Embora nunca tenha se filiado ao Partido Nazista, ele manteve a empresa operando sob as regras do regime para proteger os ativos da Coca-Cola. Para a matriz americana, ele foi visto como um herói corporativo que salvou a operação em tempos de guerra.
  • Hoje, a Fanta é o segundo produto mais vendido da The Coca-Cola Company no Brasil, perdendo apenas para a própria Coca-Cola: No mercado brasileiro, a marca se diversificou em sabores como uva, guaraná e maracujá, consolidando-se como um pilar fundamental da cultura de consumo nacional.

A história da Fanta nos ensina que, mesmo nos momentos de maior restrição e conflito, a criatividade humana (e o pragmatismo empresarial) encontra formas de se manifestar. O que começou como um "refrigerante de sobras" em uma Alemanha sitiada, transformou-se em um ícone global de refrescância.

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