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sexta-feira, 26 de setembro de 2025 às 10:31 GMT+0

Trump e o 'neoliberalismo de mercado nacional' e as novas regras da economia global - Curva do elefante e a crise da desigualdade

O economista sérvio-americano Branko Milanovic, reconhecido mundialmente por seus estudos sobre desigualdade, oferece uma análise provocativa sobre as transformações econômicas globais e seus impactos políticos e sociais. Em entrevista à BBC News Brasil, ele discute desde a trajetória brasileira na redução da disparidade de renda até o fenômeno do "liberalismo de mercado nacional" encarnado por figuras como Donald Trump. Sua visão conecta o passado do pensamento econômico ao presente conturbado, explicando como a ascensão da Ásia está reconfigurando o equilíbrio de poder e a insatisfação no Ocidente.

A análise histórica da desigualdade e as lições esquecidas

No livro "Visões da Desigualdade", Milanovic analisa seis pensadores clássicos (Quesnay, Smith, Ricardo, Marx, Pareto e Kuznets) para entender como a desigualdade foi percebida ao longo da história.

A importância dessa análise:

  • Primeiro, ela revela que, por séculos, a desigualdade era entendida principalmente como uma questão de classes sociais (proprietários de terras, capitalistas e trabalhadores). A renda de um indivíduo era determinada pela classe a que pertencia.
  • Segundo, com Vilfredo Pareto, o foco mudou para a desigualdade entre indivíduos e surgiu o conceito de uma elite no topo da pirâmide.
  • Terceiro, Simon Kuznets associou a desigualdade à transição de economias rurais para urbanas.

A relevância atual:

  • Milanovic argumenta que, durante a Guerra Fria e o auge da economia neoclássica, esses dois aspectos cruciais, a estrutura de classes e o poder das elites, foram intencionalmente negligenciados nos estudos econômicos. Isso ocorreu por razões políticas (a negação da luta de classes no bloco capitalista) e pelo financiamento de pesquisas por grandes fortunas, que não tinham interesse no tema. A América Latina, devido à sua evidente e histórica desigualdade, foi uma exceção notável a essa tendência.

O caso do Brasil: Um exemplo de sucesso na redução da desigualdade

Milanovic destaca a performance brasileira como um ponto positivo no cenário global.

A importância da trajetória brasileira:

  • O Brasil foi um dos países que mais reduziu a desigualdade na América Latina nas últimas duas décadas. O coeficiente de Gini caiu de cerca de 60 para aproximadamente 48, um declínio significativo.
  • Esse movimento começou ainda no governo Fernando Henrique Cardoso e se intensificou posteriormente, tornando a desigualdade no Brasil, hoje, apenas um pouco maior que a da China – uma convergência impressionante.

A relevância da reforma tributária:

  • Sobre a proposta de reformar o Imposto de Renda para tributar mais os super-ricos, Milanovic é taxativo: "Não há qualquer dúvida de que a reforma reduziria a desigualdade". Ele reconhece o argumento contrário sobre o risco de fuga de capitais, mas pondera que essa ameaça nem sempre se concretiza, pois os investimentos no Brasil continuam sendo lucrativos. A resistência das elites, para ele, é esperada, dado seu poder de influência na mídia e na política.

A grande transformação global: A ascensão da Ásia e o "liberalismo de mercado nacional"

Este é o tema central de seu novo livro, "The Great Global Transformation". Milanovic explica que o crescimento econômico explosivo de países como China, Índia e Vietnã causou duas grandes convulsões.

A importância da mudança geopolítica:

  • No plano internacional: Houve uma redistribuição massiva de poder econômico do Ocidente para a Ásia, levando a um conflito pela hegemonia global, principalmente entre Estados Unidos e China.
  • No plano individual: Milhões de asiáticos ascenderam na pirâmide de renda global, ultrapassando cidadãos da classe média dos países ricos. Este fenômeno é ilustrado pela famosa "curva do elefante" de Milanovic, que mostra o alto crescimento da renda da classe média asiática versus a estagnação da classe média ocidental.

A relevância para a política ocidental:

Essa "queda" relativa na hierarquia global gerou frustração e insatisfação nas classes médias dos países desenvolvidos. Esse sentimento, argumenta Milanovic, foi o combustível para a eleição de Donald Trump nos EUA e para o surgimento de instabilidades políticas na Europa.

Donald Trump: O "neoliberal otimista" e mercantilista

Milanovic apresenta uma análise nuanceada de Trump, separando suas políticas domésticas das internacionais.

A importância dessa distinção:

  • Domesticamente, Trump é um neoliberal: Ele defende e pratica a desregulamentação, cortes de impostos (especialmente para os ricos) e um Estado menor. São políticas clássicas do receituário neoliberal.
  • Internacionalmente, Trump é um mercantilista: Ele rejeita o livre-comércio e adota políticas protecionistas e tarifárias, focadas no interesse nacional imediato.

A relevância do "liberalismo de mercado nacional":

Essa combinação define o que Milanovic chama de "liberalismo de mercado nacional". É uma doutrina que aplica o neoliberalismo apenas internamente, abandonando-o no cenário global. Seu confronto com a independência do Federal Reserve (Banco Central dos EUA) se encaixa nessa lógica: Trump, um "otimista" que acredita que seu grupo permanecerá no poder, não vê necessidade de instituições "blindadas" contra o controle político, ao contrário dos neoliberais "pessimistas" do passado que as criaram para se proteger de governos futuros.

Um mundo em recalibragem

A análise de Branko Milanovic pinta um quadro de um mundo em profunda transformação. A redução da desigualdade em países como o Brasil contrasta com a crescente insatisfação no mundo desenvolvido, alimentada pela ascensão asiática. A figura de Donald Trump é um sintoma dessa era de transição, representando uma fusão inédita de neoliberalismo interno e nacionalismo econômico externo. As ideias de Milanovic nos convidam a entender que os atuais conflitos comerciais e tensões geopolíticas não são eventos isolados, mas parte de uma "grande transformação global" que está redefinindo a riqueza e o poder entre nações e dentro delas. O desafio para as democracias será gerenciar essas mudanças profundas sem abrir mão de seus valores fundamentais.

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