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quinta-feira, 13 de novembro de 2025 às 11:06 GMT+0

O voto da bala: Análise de como o "espetáculo da repressão" cimenta a carreira de governadores e mantém o crime de colarinho branco intacto

O resumo aborda o fenômeno da popularidade política gerada por operações de segurança pública de "linha-dura", usando como ponto de partida uma grande ação policial no Rio de Janeiro em 2025. A análise detalhada, baseada em pesquisas e experiências internacionais, questiona a sustentabilidade desse apoio e seus custos para a democracia e a segurança pública.

O impacto imediato da linha-dura no Brasil

A megoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025, ilustrou o ganho político imediato de ações de alto impacto.

  • Aumento de popularidade: A operação, que resultou em 121 mortes, elevou a aprovação do governador Cláudio Castro a patamares entre 40% e 47%, superando o Presidente e o Prefeito, conforme pesquisas da AtlasIntel e Datafolha.
  • Projeção nacional: O evento galvanizou a direita brasileira e projetou Castro como um líder nacional, culminando na formação do "Consórcio da Paz," uma aliança de governadores para combater o crime organizado.

Perguntas cruciais não respondidas pela operação:

1. A popularidade conquistada por políticas de segurança linha-dura é duradoura e resiliente a longo prazo?
2. A operação resultou em uma diminuição significativa e sustentável das taxas de criminalidade e violência na região?
3. Houve uma queda efetiva no poder e na estrutura das organizações criminosas que atuam nos complexos?
4. A operação teve uma estratégia clara de ocupação ou de desenvolvimento social para "o depois", garantindo a não-reinstalação do crime?

Por que entender este fenômeno é vital

A compreensão do mecanismo de apoio à linha-dura é crucial para a saúde pública e democrática:

  • Saúde da democracia: É fundamental entender como o medo e a frustração com a violência podem levar a uma troca entre segurança e liberdades civis, afetando a estabilidade das instituições democráticas.
  • Tendências eleitorais: Analisar esse padrão ajuda a prever e entender o uso de estratégias de "mão dura" como ferramenta de ganho eleitoral de curto prazo.
  • Discernimento de políticas públicas: É necessário distinguir entre ações que geram popularidade passageira (midiáticas) e investimentos em segurança pública estratégica e sustentável que produzem resultados concretos e a longo prazo.
  • Custos humanos: O acompanhamento desses casos lança luz sobre os custos humanos de operações violentas e como a exposição de abusos estatais pode, eventualmente, minar o apoio popular.

A efemeridade do apoio: Lições internacionais

A experiência global indica que o "efeito popularidade" da linha-dura é tipicamente volátil e de curta duração, atuando como um "espetáculo" que disfarça a falta de resultados de segurança real.

O caso das Filipinas e o limite legal

  • Recompensa e retirada: Pesquisas mostraram que eleitores inicialmente recompensam políticos pró-Duterte, mas o apoio era retirado significativamente em áreas onde as mortes causadas pela polícia eram mais visíveis.
  • O mal-estar moral: O apoio inicial se corrói quando a violência estatal se torna indiscriminada e palpável, gerando um "mal-estar moral" na população.

O caso de El Salvador e o medo do Estado

  • Sucesso aparente: O presidente Nayib Bukele alcançou popularidade maciça, mas surgem preocupações com a economia, moradia e, fundamentalmente, com prisões arbitrárias e liberdade de expressão.
  • Medo paralelo: Um dado alarmante é que 48% dos salvadorenhos temem ser presos se criticarem o governo, indicando um medo do próprio Estado.

Perguntas cruciais não respondidas pela linha-dura:

1. As políticas de repressão conseguem desmantelar as causas estruturais da violência e do crime organizado, ou apenas transferem o problema para outra área?
2. O aumento da violência estatal, mesmo que direcionado, não gera, a médio prazo, uma hostilidade maior das comunidades, dificultando o trabalho policial de inteligência e prevenção?
3. Qual é o custo-benefício financeiro e humano de operações de guerra versus investimentos em inteligência, investigação e políticas sociais (saúde, educação, emprego) para a segurança pública?
4. O ganho eleitoral de curto prazo compensa o alto custo para a democracia, incluindo a erosão das liberdades civis e o enfraquecimento do sistema de justiça penal?
5. Existe uma via sustentável e democrática para reduzir a criminalidade que não dependa do "espetáculo" da força e da suspensão, mesmo que informal, do Estado de Direito?

O desafio brasileiro no espelho internacional

O professor Rafael Alcadipani (FGV) alerta que o caso do Rio pode incentivar outros governadores a buscarem o recompensa eleitoral de curto prazo.

  • Ineficácia e ausência de estratégia: O professor questiona a eficácia real da operação, citando a morte de policiais como falha operacional e a falta de uma estratégia clara.
  • A lição central: A popularidade inicial da linha-dura é uma moeda de curto prazo, vulnerável à erosão pela visibilidade dos abusos, pela ausência de resultados duradouros em segurança e pelo questionamento crescente sobre os custos para as liberdades democráticas.
  • O desafio para a sociedade: O desafio crucial reside em distinguir o espetáculo momentâneo da força da construção paciente e de longo prazo de uma segurança pública que seja, simultaneamente, eficaz e respeitadora dos direitos.

"A linha-dura é o analgésico que a política oferece para a dor crônica da violência: alivia o sintoma eleitoralmente, mas ignora a doença da desigualdade. A cada espetáculo de força que aplaudimos, não compramos segurança duradoura, mas sim um bilhete de loteria onde o prêmio é o medo, e o custo é pago pelos mais vulneráveis. É crucial nos atentarmos: não existe crime organizado que prospere sem o apoio político e a vista grossa institucional. Enquanto as câmeras focam a base, os jovens e pobres nas favelas, os verdadeiros arquitetos do crime, aqueles no topo da cadeia alimentar que compram a impunidade, nunca são punidos e sequer desmascarados. A verdadeira coragem de um líder não se mede pelo número de mortes em uma operação, mas pela capacidade de construir uma paz que comece por expor e desmantelar a conexão entre o poder e a impunidade de quem comanda de fato."

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