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sábado, 7 de junho de 2025 às 11:00 GMT+0

Evangélicos perdem força no Brasil? O impacto da política e o novo retrato religioso no Censo

O censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou uma desaceleração no crescimento evangélico no Brasil, um fenômeno inédito desde a década de 1960. Esse dado surpreendeu muitos analistas, considerando a forte presença política e cultural dos evangélicos nos últimos anos. A cientista política Ana Carolina Evangelista, diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (ISER), analisa os fatores por trás dessa mudança, destacando o desgaste causado pelo excesso de politização nas igrejas, a insatisfação de jovens e a reação da Igreja Católica.

A desaceleração do crescimento evangélico

  • O censo mostrou que os evangélicos ainda são o grupo religioso que mais cresce no Brasil, mas em um ritmo menor: o avanço foi de 6 pontos percentuais nas décadas anteriores para 5,2 pontos em 2022. Esse dado contrariou projeções que previam um crescimento vertiginoso, baseadas na visibilidade política e midiática dos evangélicos. No entanto, como explica Evangelista, maior presença pública não significa necessariamente mais conversões.

Fatores que explicam a mudança

Vários elementos contribuem para essa desaceleração:

1. Insatisfação dos jovens: Muitos jovens de famílias evangélicas estão migrando para o grupo dos "sem religião", descontentes com o ambiente religioso.

2. Excesso de politização: O envolvimento de lideranças evangélicas em pautas partidárias tem afastado fiéis que não se identificam com esse viés.

3. Reação católica: A Igreja Católica, ainda majoritária no Brasil, tem adotado estratégias para reter fiéis, como o Sínodo da Amazônia e maior engajamento com a juventude.

Impacto na política brasileira

  • Apesar da desaceleração, os evangélicos continuam influentes na política. No entanto, o censo pode ajudar a recalibrar o debate público, que muitas vezes superestima seu peso. Evangelista ressalta que a relação entre religião e política é complexa e não deve ser reduzida a projeções numéricas.

O crescimento das religiões de matriz africana

Um dos destaques do censo foi o crescimento significativo das religiões afro-brasileiras, que mais que triplicaram em número de adeptos. Esse avanço reflete:

  • Maior conscientização racial e orgulho da ancestralidade negra.
  • Políticas de inclusão, como cotas universitárias, que ampliaram o acesso de negros ao ensino superior.

Aumento dos "sem religião" e diversidade espiritual

  • O grupo dos sem religião também cresceu, refletindo uma tendência global de secularização. No Brasil, isso não significa necessariamente abandono da fé, mas uma maior liberdade para não se vincular a instituições religiosas. Além disso, o país nunca foi tão diverso, com crescimento de outras espiritualidades, como o budismo e o espiritismo (apesar de uma pequena retração neste último).

Mudanças:

  • Os dados do censo 2022 mostram um Brasil religioso em transformação: os evangélicos ainda crescem, mas em ritmo menor; os católicos perdem espaço, mas seguem majoritários; e as religiões de matriz africana ganham força, impulsionadas pela luta antirracista. A politização excessiva nas igrejas evangélicas parece ser um fator de desgaste, especialmente entre os jovens. Enquanto isso, a liberdade religiosa garantida pela Constituição de 1988 permite que os brasileiros explorem novas espiritualidades ou simplesmente optem por não seguir nenhuma religião.

Essa diversidade reforça a importância do censo como ferramenta para entender as dinâmicas sociais do país. No entanto, como alerta Evangelista, é preciso cautela ao fazer projeções futuras, já que as mudanças religiosas são influenciadas por fatores políticos, culturais e geracionais que vão além dos números.

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